Anticoncepcionais hormonais e risco de câncer de mama

Anticoncepcionais hormonais e risco de câncer de mama

A associação entre uso de anticoncepção hormonal e câncer de mama vem sendo discutida há vários anos com resultados nem sempre claros e conclusivos.

Sobre este tema, foi publicado recentemente, em 7/12/2017, um estudo que analisou a população da Dinamarca usuária de anticoncepcionais hormonais com relação ao seu risco específico de câncer de mama em comparação com mulheres não-usuárias destas medicações[I].  Este estudo se reveste de grande importância pela seriedade e importância da revista científica em que foi publicado (New England Journal of Medicine) e, também, pelo grande número de mulheres envolvidas (1,8 milhão de mulheres dinamarquesas com idades entre 15 e 49 anos). Por esta razão, desde que foi publicado, vem gerando muitas discussões, dúvidas e controvérsias quanto à interpretação de seus resultados.

Considerando a importância do assunto nos meios médico e acadêmico, além da grande repercussão na população a partir das informações veiculadas pela mídia, as comissões nacionais especializadas em Anticoncepção e Mastologia da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO), em consonância com a sua diretoria científica e a sua presidência, entendem por bem vir a público para apresentar o seu posicionamento sobre o assunto após análise criteriosa dos dados publicados.

  1. Este estudo baseou sua análise em bancos de dados de registros nacionais da Dinamarca de prescrições e de doenças. Este tipo de estudo está, por sua própria natureza, sujeito a vieses e equívocos, por vezes intangíveis.
  2. Seus resultados mostram pequeno aumento no risco de câncer de mama em usuárias de anticoncepcionais hormonais. O uso de qualquer tipo de anticoncepcional hormonal se associou a 1,3 novos casos de câncer de mama para cada 10.000 mulheres ao ano. Este aumento de risco se mostrou tanto maior quanto mais tempo de uso dos anticoncepcionais hormonais.
  3. Entretanto, não houve risco aumentado entre as mulheres que utilizaram contracepção hormonal por menos de 5 anos.
  4. Para o grupo de mulheres abaixo de 35 anos, que representam a grande maioria das usuárias de anticoncepcionais hormonais, o estudo mostrou acréscimo de 0,2 casos de câncer de mama em cada 10.000 mulheres ao ano. O aumento de risco no grupo de mulheres acima de 35 ou 40 anos foi maior, o que pode se confundir com a própria história natural do câncer de mama, cuja incidência é maior nesta faixa etária, ainda que, a analise comparativa frente ao grupo de não usuárias de anticoncepcionais hormonais ter mostrado este aumento relativo do risco.
  5. Não houve evidência de grandes diferenças no risco de câncer de mama entre mulheres que usaram vários contraceptivos orais combinados. Poucas diferenças significativas foram detectadas quando várias preparações foram comparadas e, ainda assim, as mesmas não se mostraram significativas após o ajuste para múltiplos testes. Portanto, não se pode falar de maior risco de uma formulação de anticoncepcional em relação a outra com composição diferente.
  6. O acréscimo de risco para câncer de mama entre usuárias de contraceptivos hormonais combinados (pílulas anticoncepcionais) desapareceu após a interrupção do anticoncepcional. Este achado demonstra a não influência dos anticoncepcionais sobre a gênese do câncer de mama (dano genético na origem do câncer de mama). Se assim fosse, o risco permaneceria elevado por todo o tempo após a sua interrupção. Portanto, não existe, com base neste estudo demonstração de relação causal entre uso de anticoncepcionais e risco de câncer de mama.
  7. Em contraste, estudos anteriores, como o do Center of Disease Control (CDC) dos Estados Unidos[II] e a mais atual análise do Royal College of General Practitioner do Reino Unido[III], não demostraram aumento no risco do câncer de mama entre usuárias de anticoncepcionais hormonais. Em contrapartida, demonstraram uma diminuição nos riscos de cânceres de endométrio, ovários e do intestino (cólon-retal).
  8. É relevante considerar que este estudo não avaliou em momento algum a mortalidade por câncer de mama nas usuárias de contraceptivos hormonais e, portanto, não é possível inferir, pelos dados apresentados, que o aumento de risco descrito tem potencial para agravar o prognóstico das mulheres que desenvolveram câncer de mama associado ao uso de anticoncepcionais hormonais.
  9. Os anticoncepcionais hormonais representam classe farmacológica da mais estudadas em todos os tempos, e se associam a elevada segurança. A análise do risco-benefício deve ser individualizada, cabendo a decisão clínica final elaborada após discussão orientada por critérios de elegibilidade para o uso dos anticoncepcionais.

 

Com base na análise deste estudo, a Febrasgo é de opinião que o mesmo não deve alterar a prática prescritiva dos anticoncepcionais hormonais, cuja indicação para uso e continuidade devem se basear nos critérios de Elegibilidade da Organização Mundial de Saúde em sua última edição de 2015 (iv) Pelas mesmas razões a Febrasgo recomenda que as usuárias de anticoncepcionais hormonais não interrompam intempestivamente o seu uso e no caso de quaisquer dúvidas a respeito devem consultar o seu ginecologista de confiança para os devidos esclarecimentos e orientações.

 

Renato Zocchio Torresan
Presidente da Comissão Nacional Especializada em Mastologia da FEBRASGO

Rogério Bonassi Machado
Presidente da Comissão Nacional Especializada em Anticoncepção da FEBRASGO

Marcos Felipe Silva de Sá
Diretor Científico da FEBRASGO

César Eduardo Fernandes
Presidente da FEBRASGO

I- Contemporary Hormonal Contraception and the Risk of Breast Cancer. Mørch LS, Skovlund CW, Hannaford PC, Iversen L, Fielding S, Lidegaard Ø. N Engl J Med. 2017 Dec 7;377(23):2228-2239.

II- Referência do Rogério (falta colocar)

III- Hannaford PC, Iversen L, Macfarlane TV, et al. Mortality among contraceptive pill users: cohort evidence from Royal College of General Practitioners’ Oral Contraception Study. BMJ 2010;340:c927.

IV – World Health Organization. Medical eligibility criteria for contraceptive use. 5a ed. Genebra: WHO; 2015. [acesso em 15 dec 2017]. Disponível em: http://www.who.int/reproductivehealth/publications/family_planning/MEC-5/en/.

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